Pares ordenados e Relações
Vou relembrar pares ordenados e relações. Um caso particular de relações, funções, será o próximo tema.
Primeiramente, a noção de igualdade entre conjuntos que definimos ignora
- multiplos elementos idênticos;
- ordem em que os elementos são apresentados,
uma vez que os conjuntos
,
e
seriam iguais — lembre-se que dois conjuntos são iguais simplesmente se eles possuem os mesmos elementos.
Gostaríamos de definir um objeto análogo, mas que leve em consideração estes dois fatores.
Definição 1: Denotamos por par ordenado
o conjunto
.
É óbvio que se
for o mesmo elemento que
e
for o mesmo elemento que
,
, diretamente da definição.
Fica fácil ver que a recíproca também é verdadeira, isto é, se
, então
é igual a
e
é igual a
, pois a hipótese quer dizer que
e, por igualdade de conjuntos, um dos resultados abaixo deve valer:
e
;
e
.
Se a primeira valer, então
e
, isto é,
e
são iguais a
e
e
são iguais a
. Obviamente, todos devem então ser o mesmo elemento e o resultado segue.
Na segunda possibilidade,
e
, o que significa que
e
devem ser iguais. Além disso,
e
, o que implica — como
e
já são iguais — que, caso
e
sejam iguais, então todos os quatro elementos devem ser idênticos, mas caso
e
sejam distintos, então
necessariamente é igual a
. De qualquer maneira, o resultado segue.
Temos então que
se e somente se
é igual a
e
é igual a
.
Agora outra definição:
Definição 2: Uma tupla ordenada
é definida recursivamente como o par ordenado
.
Esta definição será consistente somente se o resultado anterior também se aplicar a ela, isto é,
se e somente se
e
forem iguais, dois a dois.
Acabamos de mostrar o resultado para um par ordenado simples. Supondo que para (n-1)-tuplas o resultado é satisfeito, o mesmo argumento mostra que para n-tuplas o resultado segue — por indução.
Vamos concordar que, se
e
, então
é a (2n)-tupla
. Dados os resultados acima, este acordo cai apenas como uma convenção de notação.
Mas onde aparecem tuplas ordenadas?
Definição 3: Dados dois conjuntos
e
, definimos o produto cartesiano entre eles pelo conjunto de todos os pares ordenados
possíveis, em que
e
, que denotamos por
. Se
, denotamos
por
.
Fácil ver que
é o conjunto das triplas ordenadas, cujo primeiro elemento está em
, o segundo em
e o terceiro em
. De maneira análoga, denotaremos
(n vezes) por
.
Definição 4: Uma relação
entre dois conjuntos
e
é um subconjunto de
. Se
, dizemos simplesmente que
é uma relação em
. Se
, dizemos que
e
se relacionam por
e escrevemos
.
Definição 5: Dizemos que uma relação
em 
- É reflexiva se
para todo
; - É simétrica se
implica que
, para
; - É transitiva se caso
e
, então necessariamente
, para
.
Se uma relação satisfaz todas as propriedades anteriores — se ela é reflexiva, simétrica e transitiva —, dizemos que ela é uma relação de equivalência em
. Normalmente uma relação de equivalência recebe um símbolo especial. Aqui vamos usar o
.
Relações de equivalência são úteis para “dividir” um conjunto em conjuntos menores disjuntos, isto é, para criarmos uma família de subconjuntos
de
—
, um conjunto índice — todos disjuntos dois a dois, tais que
. Uma família de conjuntos com estas propriedades é dita uma partição de
.
Toda relação de equivalência em
gera uma partição em
, da seguinte maneira:
Definição 6: Seja
uma relação de equivalência em um conjunto
. Se
, a classe de equivalência de
— ou simplesmente classe de
—, denotada por
, é definida como o conjunto
.
Vamos agora mostrar, com dois resultados consecutivos, que relações de equivalência e partições são na realidade duas maneiras distintas de se ver a mesma coisa, isto é, maneiras semelhantes de se “dividir” um conjunto em “pedaços” menores disjuntos.
Lema 1: Se
é uma relação de equivalência em
, então
se e somente se
— isto é,
se relaciona com
por
se e somente se suas classes de equivalência forem conjuntos idênticos.
Demonstração: Assuma que
. Se
, então
e, por transitividade,
. Portanto,
e
— pois todo elemento
de
é elemento de
. De maneira análoga, se
, então
e
. Logo,
.
Agora imagine que
. Então
, por reflexividade, e
, o que implica que
. 
Fica claro então que a família
,
, é uma partição de
, pois
- Se
, então
;
, pois, obviamente,
e também
, por reflexividade;- Se
, então
, pois caso
, então
e
. Por transitividade,
, o que é absurdo. Então, ou duas classes são iguais, ou são disjuntas.
Mostramos que toda relação de equivalência produz uma partição. Agora vamos mostrar que toda partição produz uma relação de equivalência, no seguinte sentido:
Proposição 1: Se
,
, é uma partição de
, então existe uma relação de equivalência tal que suas classes são os
da partição.
Demonstração: Defina
uma relação tal que
se existe
tal que
. Fica óbvio que esta relação é simétrica e reflexiva.
Para mostrar que é transitiva, imagine que
e
. Isto é o mesmo que existir
tais que
e
. Uma vez que
e os
são todos disjuntos dois a dois,
necessariamente é igual a
. Então, como
,
. 
Mostramos então que uma relação de equivalência em
está unicamente determinada pelas suas classes, que particionam
.
Vamos depois definir função, um tipo especial de relação, com uma propriedade especial. Relações de equivalência serão depois úteis para identificar objetos que, a princípio, seriam distintos.