Pares ordenados e Relações

Jun 22 2010

Vou relembrar pares ordenados e relações. Um caso particular de relações, funções, será o próximo tema.

Primeiramente, a noção de igualdade entre conjuntos que definimos ignora

  • multiplos elementos idênticos;
  • ordem em que os elementos são apresentados,

uma vez que os conjuntos \{x, x, y\}, \{x, y\} e \{y, x\} seriam iguais — lembre-se que dois conjuntos são iguais simplesmente se eles possuem os mesmos elementos.

Gostaríamos de definir um objeto análogo, mas que leve em consideração estes dois fatores.

Definição 1: Denotamos por par ordenado (a, b) o conjunto \{\{a\}, \{a, b\}\}.

É óbvio que se a for o mesmo elemento que c e b for o mesmo elemento que d, (a, b) = (c, d), diretamente da definição.

Fica fácil ver que a recíproca também é verdadeira, isto é, se (a, b) = (c, d), então a é igual a c e b é igual a d, pois a hipótese quer dizer que \{\{a\}, \{a, b\}\} = \{\{c\}, \{c, d\}\} e, por igualdade de conjuntos, um dos resultados abaixo deve valer:

  • \{a\} = \{c, d\} e \{a, b\} = \{c\};
  • \{a\} = \{c\} e \{a, b\} = \{c, d\}.

Se a primeira valer, então c, d \in \{a\} e a, b \in \{c\}, isto é, c e d são iguais a a e a e b são iguais a c. Obviamente, todos devem então ser o mesmo elemento e o resultado segue.

Na segunda possibilidade, a \in \{c\} e c \in \{a\}, o que significa que a e c devem ser iguais. Além disso, a, b \in \{c, d\} e c, d \in \{a, b\}, o que implica — como a e c já são iguais — que, caso a e b sejam iguais, então todos os quatro elementos devem ser idênticos, mas caso a e b sejam distintos, então d necessariamente é igual a b. De qualquer maneira, o resultado segue.

Temos então que (a, b) = (c, d) se e somente se a é igual a b e c é igual a d.

Agora outra definição:

Definição 2: Uma tupla ordenada (a_1, a_2, \ldots, a_n) é definida recursivamente como o par ordenado ((a_1, a_2, \ldots, a_{n-1}), a_n).

Esta definição será consistente somente se o resultado anterior também se aplicar a ela, isto é, (a_1, \ldots, a_n) = (b_1, \ldots, b_n) se e somente se a_i e b_i forem iguais, dois a dois.

Acabamos de mostrar o resultado para um par ordenado simples. Supondo que para (n-1)-tuplas o resultado é satisfeito, o mesmo argumento mostra que para n-tuplas o resultado segue — por indução.

Vamos concordar que, se x = (a_1, \ldots, a_n) e y = (b_1, \ldots, b_n), então (x, y) = ((a_1, \ldots, a_n), (b_1, \ldots, b_n)) é a (2n)-tupla (a_1, \ldots, a_n, b_1, \ldots, b_n). Dados os resultados acima, este acordo cai apenas como uma convenção de notação.

Mas onde aparecem tuplas ordenadas?

Definição 3: Dados dois conjuntos X e Y, definimos o produto cartesiano entre eles pelo conjunto de todos os pares ordenados (a, y) possíveis, em que x \in X e y \in Y, que denotamos por X \times Y. Se X = Y, denotamos X \times Y por X^{2}.

Fácil ver que (X \times Y) \times Z = X \times (Y \times Z) é o conjunto das triplas ordenadas, cujo primeiro elemento está em X, o segundo em Y e o terceiro em Z. De maneira análoga, denotaremos X \times X \times \ldots \times X (n vezes) por X^n.

Definição 4: Uma relação R entre dois conjuntos X e Y é um subconjunto de X \times Y. Se X = Y, dizemos simplesmente que R é uma relação em X. Se (x, y) \in R, dizemos que x e y se relacionam por R e escrevemos x R y.

Definição 5: Dizemos que uma relação R em X

  • É reflexiva se x R x para todo x \in X;
  • É simétrica se x R y implica que y R x, para x, y \in X;
  • É transitiva se caso x R y e y R z, então necessariamente x R z, para x, y, z \in X.

Se uma relação satisfaz todas as propriedades anteriores — se ela é reflexiva, simétrica e transitiva —, dizemos que ela é uma relação de equivalência em X. Normalmente uma relação de equivalência recebe um símbolo especial. Aqui vamos usar o \equiv.

Relações de equivalência são úteis para “dividir” um conjunto em conjuntos menores disjuntos, isto é, para criarmos uma família de subconjuntos X_i de Xi \in I, um conjunto índice — todos disjuntos dois a dois, tais que X = \bigcup_{i \in I}{X_i}. Uma família de conjuntos com estas propriedades é dita uma partição de X.

Toda relação de equivalência em X gera uma partição em X, da seguinte maneira:

Definição 6: Seja \equiv uma relação de equivalência em um conjunto X. Se x \in X, a classe de equivalência de x — ou simplesmente classe de x —, denotada por [x], é definida como o conjunto \{y \in X: y \equiv x\} \subseteq X.

Vamos agora mostrar, com dois resultados consecutivos, que relações de equivalência e partições são na realidade duas maneiras distintas de se ver a mesma coisa, isto é, maneiras semelhantes de se “dividir” um conjunto em “pedaços” menores disjuntos.

Lema 1: Se \equiv é uma relação de equivalência em X, então x \equiv y se e somente se [x] = [y] — isto é, x se relaciona com y por \equiv se e somente se suas classes de equivalência forem conjuntos idênticos.

Demonstração: Assuma que x \equiv y. Se z \in [x], então z \equiv x e, por transitividade, z \equiv y. Portanto, z \in [y] e [x] \subseteq [y] — pois todo elemento z de [x] é elemento de [y]. De maneira análoga, se z \in [y], então z \in [x] e [y] \subseteq [x]. Logo, [x] = [y].

Agora imagine que [x] = [y]. Então x \in [x], por reflexividade, e x \in [x] = [y], o que implica que x \equiv y. \Box

Fica claro então que a família [x], x \in X, é uma partição de X, pois

  • Se x \in X, então [x] \subseteq X;
  • \bigcup_{x \in X}{[x]} = X, pois, obviamente, \bigcup_{x \in X}{[x]} \subseteq X = \bigcup_{x \in X}{x} e também X = \bigcup_{x \in X}{x} \subseteq \bigcup_{x \in X}{[x]}, por reflexividade;
  • Se x \not\equiv y, então [x] \cap [y] = \emptyset, pois caso z \in [x] \cap [y], então z \equiv x e z \equiv y. Por transitividade, x \equiv y, o que é absurdo. Então, ou duas classes são iguais, ou são disjuntas.

Mostramos que toda relação de equivalência produz uma partição. Agora vamos mostrar que toda partição produz uma relação de equivalência, no seguinte sentido:

Proposição 1: Se X_i, i \in I, é uma partição de X, então existe uma relação de equivalência tal que suas classes são os X_i da partição.

Demonstração: Defina \equiv uma relação tal que x \equiv y se existe j \in I tal que x, y \in X_j. Fica óbvio que esta relação é simétrica e reflexiva.

Para mostrar que é transitiva, imagine que x \equiv y e y \equiv z. Isto é o mesmo que existir j, k \in I tais que x, y \in X_j e y, z \in X_k. Uma vez que y \in X_j \cap X_k e os X_i são todos disjuntos dois a dois, X_j necessariamente é igual a X_k. Então, como x, z \in X_j = X_k, x \equiv z. \Box

Mostramos então que uma relação de equivalência em X está unicamente determinada pelas suas classes, que particionam X.

Vamos depois definir função, um tipo especial de relação, com uma propriedade especial. Relações de equivalência serão depois úteis para identificar objetos que, a princípio, seriam distintos.

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